Estratégia da Telecom Italia exclui a Oi

O presidente mundial do grupo Telecom Italia, 

Flavio Cattaneo, 


colocou um ponto final nas discussões sobre uma possível aquisição da Oi pela TIM, como vem sendo debatido de forma recorrente no mercado. Em entrevista ao Valor, o executivo lembrou que a dívida da Oi com multas e outros débitos à Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) supera R$ 20 bilhões. Como o montante é praticamente equivalente ao valor de mercado da subsidiária TIM Brasil, Cattaneo afirmou: "A Oi está devendo uma TIM para a Anatel". Isso seria um forte argumento negativo para se pensar numa aquisição. Cálculo do Valor Data indica que o valor de mercado da TIM atingiu ontem R$ 20,3 bilhões. A ação preferencial fechou em alta de 0,24%, cotada a R$ 8,40 na BM&FBovespa. No mês, a valorização foi de 6,33%. Na bolsa de Milão, a ação da Telecom Italia avançou 2,3%, para € 0,73. Mesmo resistente a falar sobre hipóteses, Cattaneo tomou por base experiências internacionais de outras empresas que passaram por processo de recuperação judicial. "Se a Oi conseguir separar a dívida dos ativos, como fizeram Chrysler e Varig, estaremos na janela observando", disse. Por enquanto, afirma que não vê com interesse uma eventual consolidação com a Oi, nem mesmo com o refinanciamento da dívida da rival. "Estamos bem assim." Indagado sobre o movimento das teles junto ao governo em favor da consolidação de empresas, o que provocaria uma concentração do setor de telecomunicações, Cattaneo disse que essa decisão cabe ao próprio mercado. "As operadoras precisam ter rentabilidade para impulsionar os investimentos. Mas não significa que o número de empresas deva ser predefinido", disse. Ele lembra que o mercado de aparelhos celulares se consolidou com quatro grandes empresas mundiais: Motorola, Nokia, Ericsson e BlackBerry. "Um dia veio a Apple com o iPhone e consolidou o mercado sem cobrar ninguém, só com a oferta, tornando­se a melhor escolha. No fim, a decisão foi do consumidor." Após passar 15 dias no Brasil, Cattaneo retorna hoje à Itália. Para justificar o longo período longe da matriz, disse que seu estilo de gestão requer acompanhar de perto os negócios, estar presente para entender o que está acontecendo. Uma de suas primeiras reuniões foi com o presidente Michel Temer, que reafirmou a abertura do governo para atrair investimentos, sobretudo em infraestrutura de vários setores, inclusive de telecomunicações, enquanto o executivo disse ter lembrado a Temer que a Telecom Italia já fez aportes diretos de € 8 bilhões no Brasil, desde a privatização, e mantém a decisão de crescer no país. No cargo desde março, quando substituiu Marco Patuano, Cattaneo já ocupava assento no conselho de administração do grupo desde 2014. Antes disso, passou por outros segmentos na Itália que tinham empresas listadas no mercado brasileiro. É o caso da Terna Participações, vendida para a Cemig. Atuou ainda na multinacional de seguros Generali Assicurazioni e na emissora de TV RAI. Agora, veio ver de perto um ambiente de negócios que já lhe é familiar, desta vez acompanhado de Stefano de Angelis, também com nova função ­ presidente da TIM Brasil desde maio, no lugar de Rodrigo Abreu. Executivo ainda vê margem para reduzir custos e ganhar eficiência na TIM, que já aprofundou cortes no 2º trimestre Na atual visita, Cattaneo observou e discutiu todos os ângulos e estratégicas do negócio, principalmente a evolução do serviço móvel e a expansão da cobertura da rede de fibra óptica em São Paulo e no Rio de Janeiro, onde a TIM já está presente. A fibra é o meio para entregar a banda larga, especialmente em 4G, com a tecnologia LTE. As operadoras de redes móveis têm melhorado a velocidade de transmissão de dados e qualidade do serviço com a interligação de torres e antenas de celular com fibra. No plano para o triênio 2016­2018, o grupo reduziu os investimentos da TIM Brasil de R$ 14 bilhões aprovados anteriormente para R$ 12,5 bilhões. Mas Cattaneo minimiza a iniciativa ao dizer que não interpreta como queda a possibilidade de executar as mesmas ações com menos recursos. Em sua opinião, trata­se "de um plano de eficiência". Para isso, a TIM está negociando com fornecedores e parceiros financeiros. Embora em seu mercado doméstico a Telecom Italia mantenha um forte foco em fibra, Cattaneo disse que a situação do grupo nos mercados italiano e brasileiro é completamente diferente. Na Itália, a tele é dominante e cobre 54% do mercado com fibra ­ a meta é atingir 84% até 2018. Segundo o executivo, é possível que a meta seja antecipada, pois tem crescido a aquisição de clientes ­ 2 dígitos em setembro de 2016 comparado a igual período de 2015. No Brasil, a soma da receita líquida das teles atingiu R$ 33,8 bilhões no segundo trimestre do ano. Com R$ 3,8 bilhões, a TIM é a quarta no ranking liderado pela Vivo (R$ 10,5 bilhões). Para melhorar os números, a TIM aprofundou seu plano de corte de custos de R$ 700 milhões para R$ 1,7 bilhão, no segundo trimestre. Segundo Cattaneo, ainda há margem para reduzir custos e ganhar mais eficiência. Ele não descartou novas demissões. Com 60 mil funcionários no grupo, as dispensas têm sido usadas para diminuir despesas, inclusive com o corte de cargos executivos. "Se tem mais generais que soldados, a gente perde a guerra", comparou. O equilíbrio depende dos resultados que forem apresentados. No primeiro semestre, a Telecom Italia informou lucro líquido de € 1 bilhão. A receita caiu 9,9% no período, para € 9,1 bilhões. A queda de € 1 bilhão foi atribuída principalmente ao Brasil, responsável por um recuo de € 833 milhões. A dívida líquida ajustada do grupo atingiu € 27,5 bilhões. Em 2015 equivalia a 3,9 vezes o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda, na sigla em inglês). Cattaneo pretende chegar a 2,7 vezes o Ebitda, em curto período. O Ebitda totalizou € 3,73 bilhões no semestre, alta de 2,4%. Já os custos caem, disse. A operação no Brasil também mostra recuperação, mas o executivo não quer dar um "passo maior que a perna, senão cai". Sem herdar uma rede de cobre para telefonia fixa e internet como as rivais, partiu direto para a fibra. Também sem o serviço de TV paga, a TIM negocia com provedores de conteúdo como Globo e Sky para oferecer pacotes com canais independentes. O Netflix já é parceiro da tele. Quanto à Vivendi, maior acionista individual da Telecom Italia, Cattaneo se mostrou favorável à estratégia intervencionista do sócio francês. Para o executivo, se os gestores anteriores do grupo e da TIM Brasil tivessem apresentando crescimento do faturamento e da lucratividade, a Vivendi não reclamaria nem faria mudanças.
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