Meizu Pro 6 Plus desperdiça bom hardware com usabilidade desastrosa



(Foto: Lucas Carvalho / Olhar Digital)
Testamos: Meizu Pro 6 Plus desperdiça bom hardware com usabilidade desastrosa

Na briga pelo mercado de smartphones no Brasil, algumas marcas se destacam mais do que outras. Numa arena em que Samsung, Apple, LG, Motorola e Asus chamam quase toda a atenção para si, sobra pouco espaço para a Meizu, representada no Brasil pela Vi, fazer barulho com seus smartphones chineses baratos e potentes.


O atual top de linha da marca chinesa no país é o Pro 6 Plus, que o Olhar Digital recebeu para alguns dias de teste. O aparelho é vendido apenas pela internet, no site da Vi, e custa a partir de R$ 2.199. Será que com esse dispositivo a Meizu merece ser levada a sério pelos consumidores de marcas mais tradicionais? Confira nossas impressões sobre o produto nos parágrafos abaixo.

Design e tela


Começando pelo mais visível: o design do aparelho. O Meizu Pro 6 Plus é um celular grande, com 155,6 milímetros de altura, encorpando uma tela de 5,7 polegadas (algo um tanto incomum no mercado atual). Mas apesar da clara inspiração no iPhone, até que o desenho do smartphone é bem feito, sem extravagâncias.

Aliás, já falamos aqui no Olhar Digital sobre o hábito que fabricantes chinesas têm de copiar o design do iPhone. A inspiração no celular da Apple pode ser vista no Pro 6 Plus pelo posicionamento de botões e sensores, como câmeras e o botão de Início, a posição das linhas de antena e, principalmente, o corpo em alumínio que lembra a geração do iPhone 6.

Mas não há nada de errado com a "imitação" em si, desde que a praticidade seja preservada. O problema é que, com um corpo desse tamanho, o Pro 6 Plus não é exatamente uma obra de arte da ergonomia. Uma tela tão grande em proporção comum de 16:9 é sempre difícil de manusear, especialmente quando se tenta usar o celular com apenas uma mão.


Em termos de eficiência, porém, o imenso painel de 5,7 polegadas é um dos pontos altos do celular. A resolução é o tradicional 2K (2.560 x 1.440), sobre uma tela Super AMOLED que garante cores vibrantes na medida certa, contraste bem equilibrado e economia de energia. Isso sem falar na resistência, já que o Super AMOLED, por conta da sua flexibilidade, garante uma absorção melhor do impacto com o chão em caso de queda.

Outra complicação acarretada por um corpo tão grande é a dificuldade em se encaixar o celular no bolso, a menos que você já esteja acostumado e devidamente paramentado para carregar um celular desse tamanho. No fim das contas, o design é o que menos chama a atenção no Meizu Pro 6 Plus, um celular que prefere fazer o "arroz com feijão" do iPhone do que apostar numa identidade visual extravagante demais. Assim, ele conquista pela humildade.
 
Software

Aqui é onde está a pior parte do Meizu Pro 6 Plus. O celular roda uma versão customizada do Android 6.0 Marshmallow. Como se não bastasse ser um sistema operacional ultrapassado, o Android deste aparelho ainda é personalizado e modificado ao extremo. Tanto que a Meizu o chama de Flyme OS, e não de Android.

A customização é exagerada em diversos pontos, especialmente por tentar fazer dentro do smartphone o que a fabricante já fez fora: copiar o iPhone. Desse modo, o tal Flyme OS é tanto uma cópia do iOS quanto o design exterior copia o celular da Apple. E não estamos falando apenas de estética. Toda a navegação do Pro 6 Plus tenta emular a experiência de uso do iPhone.

E isso é ruim por diversos motivos. O primeiro é que o celular acaba por enterrar algumas das melhores funções nativas do Android, como os botões de navegação. Presentes em praticamente todo celular Android no mercado, esse conjunto de três botões (às vezes virtuais, às vezes físicos) executam três funções essenciais para a usabilidade: voltar à página anterior, ir à tela de início e visualizar os últimos apps abertos.

Acontece que esses três botões não existem no Pro 6 Plus. Isso significa que, se você nunca teve um iPhone ou um celular da Meizu antes, aprender a navegar pelo tal Flyme OS pode ser um pesadelo. Afinal, uma coisa é o iOS, que é construído dessa forma desde a base e vem com apps preparados para a navegação baseada em apenas um botão. Outra coisa é um Android, cheio de aplicativos desenhados para Android, e que não se comporta como um Android.

Isso sem falar na "morte" da tradicional gaveta de apps, o que faz com que todos os aplicativos baixados fiquem para sempre estacionados na tela de fundo do sistema. Além disso, o Flyme OS não oferece nem metade das opções de customização de interface que qualquer outro Android oferece. A Meizu pegou o que há de melhor no sistema operacional do Google e jogou fora, dando preferência a um sistema mais parecido com o iOS e que não funciona tão bem como um iPhone.

Outra "curiosa" semelhança com o iPhone é a presença de um sensor de pressão ao toque, que funciona de forma parecida com o 3D Touch dos iPhones 6s e 7. Ao tocar com um pouco mais de força em algum ícone, o sistema abre uma seleção de atalhos para aquele aplicativo. O problema é que isso só funciona com os apps desenvolvidos pela própria Meizu, já que, no Android 6.0, o "3D Touch" nativo do Google ainda não estava liberado.



Preciso contar a você sobre um problema curioso que surgiu ainda nos meus primeiros dias com o aparelho. Ao ligá-lo pela primeira vez, estranhamente o smartphone não forneceu qualquer opção de configuração inicial. Não pediu dados como o meu login do Google ou o idioma de preferência, o que é normal em aparelhos Android. Simplesmente foi para a tela inicial, como se alguém já tivesse mexido nele antes.

Intrigado, decidi fazer um restauração de fábrica - decisão essa que me traria muita dor de cabeça. Após a restauração, o celular pediu, normalmente, as configurações iniciais de login, idioma etc. Só que a loja de aplicativos do Android, a Google Play Store, tinha desaparecido. Junto com o Google Play Services. De repente, me vi com um celular Android praticamente inutilizável, sem acesso aos serviços básicos da plataforma Android.

Para complicar ainda mais a situação, o aparelho veio com duas lojas de apps alternativas: uma chamada App Store, só com programas chineses irreconhecíveis; e outra chamada Hot Apps. Foi lá que, orientado por fóruns de usuários da Meizu na internet, eu encontrei um programa chamado Google Installer. É ele que descarrega a Google Play e o Google Play Services nos celulares da Meizu. E assim nossa unidade do Pro 6 Plus voltou à vida útil, ainda que na base do improviso.

Outros dois problemas graves no aparelho são o seu teclado padrão - um software feito pela Meizu que sequer está bem otimizado para o português brasileiro - e o reconhecimento de impressões digitais. O sensor, que fica no botão de Início, funciona bem e é rápido. O defeito está nos detalhes: você não pode usar a impressão digital para ligar uma tela desligada. É preciso ligar a tela primeiro e só depois posicionar a digital para fazer o desbloqueio. Ou seja: o software é programado para te fazer perder tempo.

Não sei dizer se esses problemas são específicos da unidade que recebemos para teste ou se estão em qualquer outra unidade do Meizu Pro 6 Plus. O que eu sei é que isso definitivamente não deveria acontecer. Afinal, se somarmos a isso a navegação irreconhecível, as modificações estéticas de gosto duvidoso e, principalmente, a gambiarra na instalação da Google Play, temos um celular que sai da caixa sem estar pronto para o uso.

Se você é um usuário experiente, do tipo que não se intimida diante de longas telas de configuração e gastando horas baixando apps para mudar a launcher, os ícones e tudo o mais, então, talvez, o Meizu Pro 6 Plus não seja tão ruim para você. Mas para a grande maioria dos usuários comuns de smartphone, do tipo que não têm profundos conhecimentos sobre tecnologia, passar tanto tempo aprimorando o celular é, sim, um obstáculo dos grandes.

Pode parecer óbvio, mas é por isso que um smartphone precisa sair da caixa pronto para ser usado imediatamente. Passar quase uma hora customizando coisas simples como teclado, launcher, navegação, ícones e até a Google Play, só para se ter acesso a um smartphone minimamente útil... bem, este é um defeito inadmissível em 2017.


Performance e bateria

Se a usabilidade do Meizu Pro 6 Plus é um pesadelo, o mesmo não se pode dizer do seu hardware. No papel, ele impressiona. O processador é um Exynos 8890, o mesmo do Galaxy S7 da Samsung, que vem com oito núcleos: quatro de 2.0 GHz para tarefas mais pesadas e outros quatro de 1.5 GHz para tarefas mais simples - um conjunto que ajuda a economizar energia.

Junto ao processador de alto desempenho estão 4 GB de RAM e 64 GB de armazenamento. Com tudo isso, o Meizu Pro 6 Plus apresenta uma performance impressionante para a sua faixa de preço. Além de resolver tarefas simples com muita rapidez, o aparelho lida com programas pesados, incluindo jogos como o FPS "Modern Combat", sem qualquer sinal de engasgo ou travamento.

Em apps de análise de desempenho, essa potência toda se confirma. O AnTuTu deu para a nossa unidade de teste nada menos do que 110.417 pontos - mesmo nível do Galaxy S7, top de linha da Sansung do ano passado. Já no Geekbench, o celular registrou 1.269 pontos em apenas um núcleo e 4.467 pontos em múltiplos núcleos. Ou seja, não é a melhor performance possível de se comprar no mercado hoje, mas é superior a muitos modelos na mesma faixa de preço.

A bateria, é também muito competente. São 3.400 mAh de potência que se traduzem, em média, em quase um dia inteiro de uso moderado - incluindo navegação por redes sociais, vídeos em alta definição, streaming de música pelo Spotify e séries na Netflix, tudo conectado ao Wi-Fi. Também não é a melhor bateria do mercado, mas não vai te deixar na mão. A recarga, por sua vez, é rápida, indo de 0% a 100% em pouco mais de uma hora. Isso graças ao cabo USB-C que conecta o celular ao carregador.

Resumindo: enquanto o software é uma decepção total, o hardware faz valer o investimento, com ótimas especificações e uma performance limpa. Tudo isso numa faixa de preço acessível (em comparação com outros produtos de especificações semelhantes), o que lhe garante pontos no fator custo-benefício. Uma pena que a usabilidade não acompanhe todo esse poder de fogo.
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